EDITORIAL
Agência — Branding · Agosto 2026 · 5 min de leitura

Quando o criador escreve, a campanha muda de natureza

por Angelo Mazzutti · Diretor Criativo

Resposta rápida

Contratar um criador como parceiro criativo significa entregar a ele o briefing, não o roteiro pronto — e aceitar que a peça final carregue a voz dele, não apenas o rosto. Como garota-propaganda, o talento empresta credibilidade emprestada e devolve uma leitura genérica; como parceiro de direção criativa, ele assume risco autoral e devolve uma narrativa que soa verdadeira porque foi escrita por quem fala aquela língua. A diferença aparece na primeira frase da peça.

A maioria das marcas ainda trata casting como escolha de rosto. Escolhe-se uma face pela base, pela afinidade demográfica, pelo brilho que ela empresta ao frame — e entrega-se a ela um roteiro pronto para dizer. A 99Compras fez o movimento contrário na sua chegada à Grande São Paulo: entregou o problema a Manu Gavassi e recebeu de volta a solução escrita por ela. Há uma distância estratégica enorme entre essas duas decisões, e ela aparece inteira na peça.

O que a 99Compras fez de diferente

Em 2026, a 99Compras — divisão de entrega rápida do superapp 99 — estreou na Grande São Paulo com a campanha "Delírios da Vida Adulta". A leitura de partida é simples e precisa: a vida adulta normalizou uma série de pequenos esforços invisíveis. Interromper o domingo porque falta um item. Gastar a folga no supermercado. Atravessar a cidade pela ração do cachorro. O humor observacional entra como método de reconhecimento, não como enfeite.

A campanha rodou em out of home, mídia programática, streaming, YouTube e social. Nada disso, no entanto, é o dado relevante. O dado relevante é o processo: Manu Gavassi não recebeu um roteiro para interpretar. Ela escreveu o roteiro e produziu o material com a própria equipe, adaptando a mensagem da marca à sua linguagem. A marca definiu o território — desmistificar a percepção de que comprar pelo aplicativo custa mais caro — e abriu mão do controle sobre a forma.

Esse é um gesto de direção, não de produção. E gestos de direção são os que deixam marca.

Rosto emprestado versus voz própria

Quando uma marca contrata um talento pelo que ele parece, compra uma superfície. O criador entrega presença, alcance e uma associação de imagem que dura o tempo da veiculação. É um contrato de empréstimo: a credibilidade volta para o dono assim que a campanha sai do ar.

Quando a marca contrata o talento pelo que ele pensa, o contrato muda de natureza. Ela passa a comprar leitura — a maneira específica como aquela pessoa observa o mundo e traduz observação em linguagem. Gavassi construiu autoridade justamente sobre humor autoconsciente e ironia sobre performance social. Pedir que ela apenas leia falas sobre a inconveniência da vida adulta seria desperdiçar exatamente o ativo pelo qual se está pagando.

O público, hoje, distingue as duas situações antes do terceiro segundo. Não porque tenha se tornado mais sofisticado em teoria de comunicação, mas porque acumulou repertório: assistiu a milhares de peças em que o talento claramente não escreveu a frase que está dizendo. A dissonância entre voz e roteiro é audível. E nenhuma qualidade de produção corrige um texto que soa emprestado.

Autenticidade não é adjetivo de campanha. É consequência de processo.

Por que a maioria das marcas não faz isso

Não é ignorância. É medo de perda de controle — e o medo tem fundamento real.

Entregar direção criativa a um criador significa aceitar que a peça final não passará por sete camadas de aprovação sem cicatriz. Significa abrir mão do roteiro milimetricamente calibrado por jurídico, compliance e comitê de marca. Significa que alguém de fora da estrutura vai escrever a frase que carrega o nome da empresa. Para muitas organizações, esse risco parece maior do que o ganho.

O cálculo, porém, está invertido. O risco de uma peça soar levemente fora do padrão corporativo é pequeno e reversível. O risco de uma campanha inteira soar falsa é estrutural: consome verba, ocupa o calendário, gasta a paciência do público e não deixa lastro de reputação. Marcas raramente morrem por ousadia. Morrem por irrelevância bem produzida.

A solução não é abdicar do controle — é deslocá-lo. O controle deve estar no briefing, na definição de território, no que não pode ser dito e no critério de verdade da mensagem. A partir daí, a forma pertence a quem fala. Estratégia antes de estética: a marca dirige a leitura, o criador dirige a linguagem.

Squad de criadores não é soma de alcance

Ao lado de Gavassi, a campanha reuniu nomes como Raoni Oliveira, Janaína Taffarel e Ge Ramos, entre outros criadores. A leitura preguiçosa desse arranjo é aritmética: somam-se bases e declara-se cobertura.

A leitura estratégica é outra. Um conjunto de criadores bem escolhido não amplia alcance — amplia ângulos. Cada voz testa a mesma tese em um contexto diferente de vida adulta: quem tem filho, quem tem animal, quem mora sozinho, quem administra a casa de dois. A mensagem central permanece estável enquanto a interpretação varia. Isso é consistência com pluralidade, que é o oposto de repetir o mesmo roteiro em bocas diferentes.

Quando a marca distribui o mesmo texto para dez criadores, ela produz eco. Eco cansa rápido e denuncia o mecanismo. Quando distribui a mesma tese e pede dez leituras, produz conversa. Conversa acumula.

Na House Mazzutti, tratamos casting como decisão de narrativa, não de mídia. A pergunta que abre o processo nunca é "quem tem a maior base?". É "quem pensa esse assunto de um jeito que a marca sozinha não conseguiria pensar?". A resposta a essa pergunta costuma custar menos e render mais.

O critério que separa narrativa de divulgação

Existe um teste simples para saber de que lado uma campanha caiu. Retire o logotipo da peça. Se o material continua interessante — se alguém assistiria por vontade própria, se a frase sobrevive fora do contexto comercial —, é narrativa. Se ele desmonta sem a marca, era divulgação.

"Delírios da Vida Adulta" sobrevive ao teste porque a observação vem antes do serviço. A tese existe independentemente do aplicativo: a vida adulta é feita de tarefas que ninguém escolheu e todo mundo aceitou. O produto entra como resposta a uma tensão já reconhecida, não como pretexto para criá-la. Essa ordem — tensão, depois solução — é o que permite que a peça soe como observação e não como argumento de venda.

A inversão dessa ordem é o erro mais comum do mercado. Parte-se do atributo do produto, constrói-se uma situação que justifique o atributo e contrata-se um rosto para habitar a situação. O resultado é tecnicamente correto e afetivamente vazio.

Dirigir uma campanha é decidir o que vem primeiro. Quase tudo depende dessa decisão.

"Contratar um rosto compra atenção por um mês. Contratar um ponto de vista compra reputação por anos."
— Filosofia HMZT

A campanha da 99Compras não é notável por ter escolhido bem uma face. É notável por ter reconhecido que a face vinha acompanhada de um método — e por ter tido a maturidade de usar o método em vez de descartá-lo. Esse é o ponto que separa marcas que constroem narrativa de marcas que compram exposição. Uma delega direção criativa e recebe verdade em troca. A outra escreve o roteiro sozinha, contrata alguém para dizê-lo e depois se pergunta por que não soou verdadeiro. Contratar um rosto compra atenção por um mês. Contratar um ponto de vista compra reputação por anos.

Perguntas frequentes

O que é casting criativo e como difere do casting tradicional?

Casting tradicional seleciona um talento por atributos externos: base, imagem, afinidade demográfica, disponibilidade. Casting criativo seleciona por repertório e ponto de vista — escolhe-se quem já pensa sobre aquele território de um jeito próprio. Na prática, o casting tradicional termina no contrato; o casting criativo começa nele, porque o talento entra no processo de construção da narrativa.

Como uma marca mantém consistência ao entregar direção criativa a um criador?

Deslocando o controle para o briefing. A marca define com precisão a tese, o território, o que não pode ser dito e o critério de verdade da mensagem. A forma — linguagem, ritmo, humor, estrutura do roteiro — fica com o criador. Consistência de marca se sustenta em coerência de posicionamento, não em uniformidade de sintaxe.

Co-criação com criadores serve para marcas B2B ou só para consumo?

Serve para ambos, com escala diferente. Em B2B, o criador raramente é um artista de grande base — é um especialista com autoridade reconhecida no setor. O princípio permanece idêntico: contratar pela leitura, não pela audiência.

Como medir se a co-criação funcionou melhor do que uma campanha tradicional?

Além dos indicadores de negócio, três sinais qualitativos importam: se a peça gerou conversa espontânea em vez de reação passiva, se trechos do roteiro circularam recortados do contexto comercial, e se a percepção sobre a marca mudou em pesquisa de recall e atributo.

Quando NÃO faz sentido dar direção criativa ao criador?

Quando a mensagem envolve obrigações regulatórias rígidas, dados sensíveis ou compromissos legais que não admitem paráfrase. Também não faz sentido quando a marca ainda não sabe qual é a própria tese: entregar direção criativa sem posicionamento definido não produz autenticidade, produz ruído.

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Agosto 2026
Angelo Mazzutti
AUTOR
Angelo Mazzutti

Diretor Criativo da House Mazzutti. 20 anos de ofício no audiovisual, com direção criativa para marcas premium e personalidades.